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2000269-78.2023.9.13.0001

Acao Penal Militar Procedimento OrdinarioCrimes de TorturaCrimes Previstos na Legislação ExtravaganteDIREITO PENAL
TJMMG1° GrauEm andamento
Data de Distribuicao
15/04/2024
Valor da Causa
R$ 0,00
Orgao julgador
Juiz Substituto da 1ª Auditoria - Criminal
Partes do Processo
Nenhuma parte cadastrada
Advogados / Representantes
Nenhum advogado cadastrado
Movimentacoes

246 - Arquivado Definitivamente

20/01/2026, 15:24

123 - Remetido os Autos/108 - Remessa Interna - 1AJME -> CJM

22/08/2025, 15:29

123 - Remetido os Autos/108 - Remessa Interna - CJM -> 1AJME

22/08/2025, 12:04

123 - Remetido os Autos/108 - Remessa Interna - 1AJME -> CJM

21/08/2025, 14:35

Baixa Definitiva

21/08/2025, 14:34

60 - Expedição de/80 - Outros Documentos

21/08/2025, 14:34

60 - Expedição de/107 - Certidão

21/08/2025, 14:28

581 - Juntada de /116 - Documento

28/07/2025, 14:24

11010 - Proferido despacho de mero expediente

09/07/2025, 17:41

51 - Conclusos/5 - Para despacho

03/07/2025, 16:06

581 - Juntada de/117 - Acórdão

03/07/2025, 16:03

Recebimento - TJM -> 1AJME Número: 20002697820239130001/TJM

03/07/2025, 13:37

581 - Juntada de /116 - Documento

25/06/2025, 11:18

Habilitação da Movimentação Processual de Processo Remetido

25/06/2025, 11:18

Publicacao/Comunicacao Intimação 536 - <html> <head> <meta> <style></style> </head> <body> <article> <header> <div></div> <div></div> </header> <section><b>Apela&ccedil;&atilde;o Criminal N&ordm; 2000269-78.2023.9.13.0001/JME</b></section> <section><b><table><tr><td>RELATOR</td><td>: Desembargador OSMAR DUARTE MARCELINO</td></tr><tr><td>APELANTE</td><td>: JOSE GERALDO DA CRUZ (R&Eacute;U)</td></tr><tr><td>ADVOGADO(A)</td><td>: GABRIELA RIBEIRO DA CRUZ (OAB MS026149)</td></tr><tr><td>ADVOGADO(A)</td><td>: MARCOS YLRAM PARREIRA DO NASCIMENTO (OAB MG090148)</td></tr><tr><td>APELANTE</td><td>: RICARDO KAORU DE SOUZA (R&Eacute;U)</td></tr><tr><td>ADVOGADO(A)</td><td>: DIMAS ANTONIO GONCALVES FAGUNDES REIS (OAB MG199896)</td></tr><tr><td>ADVOGADO(A)</td><td>: VICTOR GARCIA (OAB MG199897)</td></tr><tr><td>ADVOGADO(A)</td><td>: VICTOR CHEBLI DE CASTRO (OAB MG211062)</td></tr><tr><td>ADVOGADO(A)</td><td>: ANA CLARA VIANA NOGUEIRA (OAB MG211982)</td></tr></table></b></section> <section> <p align="center">EMENTA</p> </section> <section> <p><strong>EMENTA</strong></p> <p>DIREITO PENAL MILITAR E PROCESSUAL PENAL. APELA&Ccedil;&Atilde;O CRIMINAL. TORTURA-CASTIGO E TORTURA POR OMISS&Atilde;O. AUS&Ecirc;NCIA DE PROVAS ROBUSTAS. D&Uacute;VIDA QUANTO &Agrave; MATERIALIDADE E &Agrave; AUTORIA. APLICA&Ccedil;&Atilde;O DO PRINC&Iacute;PIO DO<em> IN DUBIO PRO REO.</em> RECURSO PROVIDO. ABSOLVI&Ccedil;&Atilde;O DOS R&Eacute;US.</p> <p> </p> <p>I. CASO EM EXAME</p> <p>1. Apela&ccedil;&atilde;o criminal interposta por policiais militares condenados pela pr&aacute;tica dos crimes de tortura-castigo (art. 1&ordm;, II e &sect; 4&ordm;, I, da Lei n. 9.455/97) e tortura por omiss&atilde;o (art. 1&ordm;, &sect; 2&ordm;, da mesma Lei), com a agravante prevista no art. 70, II, &ldquo;g&rdquo;, do C&oacute;digo Penal Militar. O 3&ordm; Sargento PM Jos&eacute; Geraldo da Cruz foi condenado &agrave; pena de 4 anos e 8 meses de reclus&atilde;o, em regime semiaberto, enquanto os Cabos PM <span>Ricardo Kaoru de Souza</span> e <span>Anderson Aparecido Moreno Felippe</span> foram condenados &agrave; pena de 2 anos, 9 meses e 23 dias de deten&ccedil;&atilde;o, em regime aberto. Os apelantes requereram a reforma da senten&ccedil;a e a consequente absolvi&ccedil;&atilde;o, sustentando a aus&ecirc;ncia de provas quanto &agrave; materialidade e &agrave; autoria.</p> <p> </p> <p>II. QUEST&Atilde;O EM DISCUSS&Atilde;O</p> <p>2. A quest&atilde;o em discuss&atilde;o consiste em verificar se h&aacute; nos autos provas suficientes e id&ocirc;neas a demonstrar, com o grau de certeza exigido em mat&eacute;ria penal, a pr&aacute;tica de tortura-castigo pelo r&eacute;u Jos&eacute; Geraldo da Cruz e de tortura omissiva pelos r&eacute;us <span>Ricardo Kaoru de Souza</span> e <span>Anderson Aparecido Moreno Felippe</span>.</p> <p> </p> <p>III. RAZ&Otilde;ES DE DECIDIR</p> <p>3. A aus&ecirc;ncia de testemunhas presenciais dos supostos atos de tortura impede o reconhecimento da autoria e da materialidade, sendo insuficiente o relato da v&iacute;tima desacompanhado de elementos de corrobora&ccedil;&atilde;o objetiva.</p> <p>4. A senten&ccedil;a condenat&oacute;ria fundamenta-se em laudo indireto, trechos de doutrina, compara&ccedil;&otilde;es com outros casos e conjecturas sobre o poss&iacute;vel instrumento causador das les&otilde;es, sem base probat&oacute;ria concreta nos autos deste processo.</p> <p>5. A vers&atilde;o inicial da v&iacute;tima, de que teria sofrido queda, foi desconsiderada com base apenas em suposi&ccedil;&atilde;o de temor a repres&aacute;lias, sem qualquer prova efetiva de amea&ccedil;as ou contexto anterior de viol&ecirc;ncia.</p> <p>6. O conjunto probat&oacute;rio revela fragilidade quanto &agrave; din&acirc;mica dos fatos, n&atilde;o sendo poss&iacute;vel estabelecer com seguran&ccedil;a o nexo causal entre a conduta dos acusados e as les&otilde;es verificadas.</p> <p>7. O Minist&eacute;rio P&uacute;blico, tanto nas alega&ccedil;&otilde;es finais quanto nas contrarraz&otilde;es de apela&ccedil;&atilde;o, manifestou-se pela absolvi&ccedil;&atilde;o dos r&eacute;us por insufici&ecirc;ncia de provas, reconhecendo a aus&ecirc;ncia de elementos robustos que sustentem a condena&ccedil;&atilde;o.</p> <p>8. Em processo penal, a d&uacute;vida razo&aacute;vel quanto &agrave; exist&ecirc;ncia do fato t&iacute;pico ou &agrave; autoria deve ser interpretada em favor do r&eacute;u, nos termos do princ&iacute;pio do <em>in dubio pro reo</em>.</p> <p> </p> <p>IV. DISPOSITIVO E TESE</p> <p>9. Recurso provido.</p> <p><em>Tese de julgamento:</em></p> <p>1. A aus&ecirc;ncia de provas inequ&iacute;vocas da autoria e da materialidade do crime de tortura impede a manuten&ccedil;&atilde;o de senten&ccedil;a condenat&oacute;ria.</p> <p>2. A condena&ccedil;&atilde;o criminal exige certeza, n&atilde;o sendo admiss&iacute;vel sua decreta&ccedil;&atilde;o com base em suposi&ccedil;&otilde;es, ind&iacute;cios fr&aacute;geis ou analogias com casos distintos.</p> <p>3. Em mat&eacute;ria penal, a d&uacute;vida razo&aacute;vel deve ser interpretada em favor do r&eacute;u, impondo-se a absolvi&ccedil;&atilde;o quando inexistente acervo probat&oacute;rio seguro.</p> <hr> <p><em>Dispositivos relevantes citados</em>: Lei n. 9.455/97, arts. 1&ordm;, II, &sect; 2&ordm; e &sect; 4&ordm;, I; C&oacute;digo Penal Militar, art. 70, II, &ldquo;g&rdquo;; C&oacute;digo de Processo Penal Militar, art. 439, &ldquo;e&rdquo;.</p> <p><em>Jurisprud&ecirc;ncia relevante citada</em>: TJMG, Ap. Crim. Eproc n. 2000763-76.2019.9.13.0002, Rel. Des. R&uacute;bio Paulino Coelho; TJMG, Ap. Crim. n. 0001432-21.2009.9.13.0001, Rel. Des. Fernando Galv&atilde;o da Rocha.</p></section> <section> <p align="center">AC&Oacute;RD&Atilde;O</p> </section> <section> <p>Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os desembargadores da Primeira C&acirc;mara, por unanimidade, em dar provimento aos recursos de apela&ccedil;&atilde;o dos militares, para reformar integralmente a senten&ccedil;a de primeiro grau de jurisdi&ccedil;&atilde;o e, por conseguinte, absolver os r&eacute;us, apelantes, dos crimes de tortura, nas modalidades comissiva e omissiva, que lhes s&atilde;o imputados nesta a&ccedil;&atilde;o, nos termos do art. 439, &ldquo;e&rdquo;, do C&oacute;digo de processo Penal Militar.</p> <p> </p> <p><strong>RELAT&Oacute;RIO</strong></p> <p>Cuida-se de apela&ccedil;&otilde;es criminais interpostas pelos militares Jos&eacute; Geraldo da Cruz, <span>Ricardo Kaoru de Souza</span> e <span>Anderson Aparecido Moreno Felippe</span>.</p> <p>O r&eacute;u 3&ordm; Sgt PM Jos&eacute; Geraldo da Cruz apresentou apela&ccedil;&atilde;o contra a senten&ccedil;a que o condenou pela pr&aacute;tica do crime previsto no art. 1&ordm;, inciso II, e &sect; 4&ordm;, inciso I, da Lei n. 9.455/97, qual seja tortura-castigo, com a agravante do art. 70, inciso II, al&iacute;nea &ldquo;g&rdquo;, do C&oacute;digo Penal Militar, impondo-lhe a pena de pena de 4 (quatro) anos e 8 (oito) meses de reclus&atilde;o, a ser cumprida em regime semiaberto.</p> <p>Os r&eacute;us Cb PM <span>Ricardo Kaoru de Souza</span> e Cb PM <span>Anderson Aparecido Moreno Felippe</span> apresentam seus recursos contra a senten&ccedil;a que os condenou pela pr&aacute;tica do crime previsto no art. 1&ordm;, &sect; 2&ordm;, da Lei n. 9.455/97, qual seja, tortura na modalidade omiss&atilde;o, com a agravante do art. 70, inciso II, al&iacute;nea &ldquo;g&rdquo;, do C&oacute;digo Penal Militar, impondo-lhes a pena de pena de 2 (dois) anos e 9 (nove) meses e 23 (vinte e tr&ecirc;s) dias de deten&ccedil;&atilde;o, a ser cumprida em regime aberto.</p> <p>O Minist&eacute;rio P&uacute;blico ofereceu den&uacute;ncia contra os r&eacute;us (Evento 1 -DENUNCIA1), aduzindo o seguinte:</p> <p> </p> <p>[...]</p> <p> </p> <p>- I &ndash; INICIALMENTE</p> <p>Os autos em quest&atilde;o foram encaminhados ao Minist&eacute;rio P&uacute;blico, com exerc&iacute;cio na 5&ordf; Promotoria de Justi&ccedil;a da Comarca de Juiz de Fora, sob sigilo, conforme OF&Iacute;CIO 2857/2022-1&ordf; AJME, datado de 10/11/2022.</p> <p>Segundo o fato motivador da instaura&ccedil;&atilde;o do IPM 108.745/2015, moradores em situa&ccedil;&atilde;o de rua estariam constantemente sendo submetidos a abordagens e buscas pessoais, por policiais militares, no centro da cidade de Juiz de Fora, nas quais os abordados estariam sofrendo viol&ecirc;ncias, agress&otilde;es f&iacute;sicas, verbais, psicol&oacute;gicas, destrui&ccedil;&atilde;o de objetos pessoais, dentre outros tipos de viol&ecirc;ncias e amea&ccedil;as.</p> <p>Durante a tramita&ccedil;&atilde;o do IPM 108.745/2015 foram tomadas declara&ccedil;&otilde;es de 05 ofendidos, conforme f. 99-102; 108-112; 118-122; 127-131; 136-140.</p> <p>Referidas v&iacute;timas foram ouvidas sob a prote&ccedil;&atilde;o da Lei n. 9.807/1999. No entanto, dentre as medidas de prote&ccedil;&atilde;o compreendidas no programa de prote&ccedil;&atilde;o a v&iacute;timas e testemunhas, conforme art. 7&ordm;, IV e VIII, o sigilo refere-se &agrave; preserva&ccedil;&atilde;o da identidade, imagem e dados pessoais e aos atos praticados em virtude da prote&ccedil;&atilde;o concedida.</p> <p>O sigilo de todo o processo, tal como encaminhados os autos ao membro do MP, n&atilde;o encontra correspond&ecirc;ncia com qualquer decis&atilde;o jurisdicional, em conformidade com a CF, art. 5&ordm;, LX, raz&atilde;o pela qual REQUER seja decretada a PUBLICIDADE DE TODOS OS ATOS PROCESSUAIS, com exce&ccedil;&atilde;o dos atos praticados pelas v&iacute;timas/testemunhas sob prote&ccedil;&atilde;o, inclusive seus dados de identifica&ccedil;&atilde;o.</p> <p>Consta dos autos a f. 81-82 Of&iacute;cio 337/2015, datado de 18/06/2015 - SECRETARIA DE ESTADO DE DIREITOS HUMANOS, PARTICIPA&Ccedil;&Atilde;O SOCIAL E CIDADANIA -, informando a inclus&atilde;o de pessoas - n&atilde;o nominadas evidentemente - no programa de prote&ccedil;&atilde;o aos defensores dos direitos humanos, mantido pelo Estado de Minas Gerais.</p> <p>No entanto, n&atilde;o h&aacute; determina&ccedil;&atilde;o judicial de sigilo integral do processo.</p> <p>Em raz&atilde;o do exposto, fundamentado, subsidiariamente, no art. 387 do CPPM, propugna pela declara&ccedil;&atilde;o de publicidade dos atos processuais, inclusive do IPM 108.745/15 2&ordm; BPM Juiz de Fora, bem como os atos processuais que vierem a ser praticados.</p> <p>Conforme CERTID&Atilde;O constante do EVENTO 2, requer sejam EXCLU&Iacute;DOS da publicidade processual os documentos de f. 102; 112; 122; 131; 140.</p> <p>Requer sejam INCLU&Iacute;DOS na publicidade processual os documentos de f. 147; f. 252; f. 253; f. 309 do EVENTO 2.</p> <p> </p> <p>- II - EXPOSI&Ccedil;&Atilde;O DOS FATOS CRIMINOSOS</p> <p>Foi instaurado o IPM 108.745/15 2&ordm; BPM Juiz de Fora, para apura&ccedil;&atilde;o dos seguintes fatos: em 02/06/2015 dois denunciantes teriam sido abordados por policiais militares, sendo que um deles teve o cotovelo fraturado e est&aacute; internado aguardando cirurgia; os policiais foram identificados pelos ofendidos.</p> <p>Durante a tramita&ccedil;&atilde;o do IPM, no entanto, prestaram declara&ccedil;&otilde;es 05 pessoas sob sigilo legal, as quais relataram outras pr&aacute;ticas violentas e identificaram policiais nela envolvidos.</p> <p>A f. 99-101, o ofendido declarou viver em situa&ccedil;&atilde;o de rua e que os abusos por parte de policiais consistem em abordagens violentas praticadas pelo Sargento Cruz, cabo Kitamura e Cabo Moreno, e, eventualmente uma policial feminina conhecida como Kate Marrone, fatos ocorridos em via p&uacute;blica nas imedia&ccedil;&otilde;es do N&uacute;cleo do Cidad&atilde;o de Rua e Centro POP e tamb&eacute;m nas imedia&ccedil;&otilde;es da avenida Brasil, dentre estas agress&otilde;es, a submiss&atilde;o de moradores em situa&ccedil;&atilde;o de rua se agridam mutuamente e queima de pertences por guarni&ccedil;&atilde;o policial, abusos estes reiteradamente cometidos pela mesma equipe policial.</p> <p>Ao proceder ao reconhecimento de pessoa por fotografia, apontou os policiais Sgt.. Cruz; Cb. Kitamura; Cb. Moreno e &ldquo;Kate Marrone&rdquo; (f. 103-107).</p> <p>A f. 108-111, o ofendido declarou que nas imedia&ccedil;&otilde;es da Pra&ccedil;a dos Namorados, imedia&ccedil;&otilde;es do bairro Graminha, Juiz de Fora, foi abordado pela equipe composta por Moreno e Kitamura, sendo ofendido com as seguintes palavras: &ldquo;filho da puta&rdquo;, &ldquo;vagabundo&rdquo;, &ldquo;ordin&aacute;rio&rdquo;, &ldquo;safado&rdquo;, sendo agredido com um tapa no rosto pelo PM Moreno; afirmou que no come&ccedil;o de 2015 seus pertences foram queimados; em outra abordagem pr&oacute;ximo ao Centro POP foi agredido com pauladas na perna direita pelo policial Moreno.</p> <p>Ao proceder ao reconhecimento de pessoa por fotografa, apontou os policiais Sgt.. Cruz; Cb. Kitamura; Cb. Moreno e &ldquo;Kate Marrone&rdquo; (f. 113-117).</p> <p>A f. 118-121 o ofendido declarou ser morador em situa&ccedil;&atilde;o de rua em Juiz de Fora e que em data n&atilde;o precisada, na rua Batista de Oliveira, foi submetido a abordagem por uma equipe composta pelos PMs Kitamura, Moreno, Cruz e Kate Marrone, sendo agredido pelo policial Kitamura; como resultado desta abordagem na qual fora agredido pelo PM Kitamura, ficou internado no HPS/Juiz de Fora por cerca de 10 dias em virtude de les&atilde;o na costela esquerda; afirmou que a equipe dos policiais nominados sempre age com viol&ecirc;ncia nas abordagens, inclusive com queima de documentos e pertences.</p> <p>Ao proceder ao reconhecimento de pessoa por fotografia, apontou os policiais Kitamura e Moreno (f. 123-126).</p> <p>A f. 127-130 o ofendido declarou ter sofrido agress&otilde;es pelos policiais Sargento Cruz e Moreno; que o Sgt. Cruz desferiu-lhe um soco no olho no ano de 2015 na porta do albergue, apontando a equipe composta pelos militares Sargento Cruz, Moreno, Kitamura e uma mulher; que foi abordado pelo PM Moreno tendo ele danificado um aparelho celular do declarante; que teve objetos e pertences queimados pela equipe.</p> <p>Ao proceder ao reconhecimento de pessoa por fotografia, apontou os policiais Sgt. Cruz; Kitamura e Moreno (f. 132-135).</p> <p>A f. 136-139, o ofendido declarou que em 02/06/2015 estava com mais 05 amigos moradores em situa&ccedil;&atilde;o de rua no bairro Vitorino Braga consumindo crack e foram surpreendidos pela viatura do T&aacute;tico M&oacute;vel a qual eram composta pelo Sargento Cruz, cabo Moreno, Kitamura e um outro militar n&atilde;o identificado; percebeu que os amigos estavam sendo agredidos pelos membros da equipe e o policial Kitamura deu-lhe um tapa no ouvido; um outro policial desferiu um tapa no rosto de um amigo, com imposi&ccedil;&atilde;o de que revidasse o tapa recebido pelo PM dando um tapa em outro amigo, tendo sofrido nova agress&atilde;o por um policial; que o Sgt.. Cruz, em virtude da negativa de Juli&atilde;o Preto em dar um tapa em um amigo, determinou que ele (declarante) desse um tapa no rosto de Juli&atilde;o; em virtude disso, sofreu 04 golpes de bast&atilde;o desferidos pelo Sgt.. Cruz; que em virtude da agress&atilde;o teve o bra&ccedil;o quebrado; que ficou internado por 10 dias; que informou ter ca&iacute;do na data da agress&atilde;o quando foi atendido no HPS por medo de repres&aacute;lia e que somente posteriormente disse que tinha sido agredido por policial; que a equipe composta pelo Sgt.. Cruz, Moreno e Kitamura praticam abuso ou viol&ecirc;ncia contra moradores de rua; inclusive, o seu carrinho e pertences foram queimados pela equipe.</p> <p>Ao proceder ao reconhecimento de pessoa por fotografia, apontou os policiais Sgt.. Cruz; Cb. Kitamura; Cb. Moreno (f. 141-144).</p> <p>Dos fatos acima noticiados pelas v&iacute;timas, no entanto, apenas os individualizados nos itens III.I e III.II encontram suporte probat&oacute;rio consistente.</p> <p>A policial &ldquo;Kate Marrone&rdquo; n&atilde;o foi identificada com precis&atilde;o podendo ser, ao mesmo, tempo, as policiais de nome C&iacute;ntia, Paula ou Janine, lotadas no 2&ordm; BPM. O policial militar referido nas declara&ccedil;&otilde;es como Kitamura foi identificado e qualificado como sendo RICARDO KAORU, ora denunciado.</p> <p>Na solu&ccedil;&atilde;o do IPM 108.755/2015 2&ordm; BPM o Comandante reconheceu a exist&ecirc;ncia dos crimes de condescend&ecirc;ncia criminosa por parte de JOS&Eacute; GERALDO DA CRUZ, fato alcan&ccedil;ado pela prescri&ccedil;&atilde;o da pretens&atilde;o punitiva.</p> <p> </p> <p>- III - INDIVIDUALIZA&Ccedil;&Atilde;O DOS FATOS</p> <p>- III. I - TORTURA-CASTIGO</p> <p>Aproximadamente &agrave;s 19h30min de 02/06/2015, J.L.L (v&iacute;tima sob prote&ccedil;&atilde;o) foi atendida no HPS de Juiz de Fora, onde foi atendida com les&atilde;o no cotovelo direito, com relato de &ldquo;queda da pr&oacute;pria altura&rdquo;, tendo permanecido internado at&eacute; 10/06/2015. Segundo prontu&aacute;rio de atendimento, o indiv&iacute;duo foi submetido a tratamento cir&uacute;rgico de fratura do cotovelo direito (FRATURA DA EXTREMIDADE SUPERIOR DO C&Uacute;BITO (ULNA).</p> <p>No entanto, a causa da les&atilde;o era outra.</p> <p>O morador em situa&ccedil;&atilde;o de rua se encontrava nas imedia&ccedil;&otilde;es da pra&ccedil;a Teot&ocirc;nio Vilela, avenida Brasil, bairro Vitorino Braga, Juiz de Fora, quando foi brutalmente espancado pelo policial militar Sgt.. CRUZ, durante uma violenta, opressiva e abusiva interven&ccedil;&atilde;o, como castigo por ter a v&iacute;tima se recusado a desferir ele pr&oacute;prio um tapa em outro abordado pela guarni&ccedil;&atilde;o, sofrendo golpes de bast&atilde;o desferidos pelo Sgt.. CRUZ, como forma de castigo por ter desobedecido ordem criminosa de agredir outra pessoa tamb&eacute;m abordada, tendo a v&iacute;tima sido atingida pelo denunciado enquanto estava sob o poder de autoridade do militar no exerc&iacute;cio ileg&iacute;timo do poder.</p> <p>Na data em refer&ecirc;ncia, os denunciados RICARDO KAORU e ANDERSON APARECIDO MORENO participaram do crime, encontrando-se em apoio operacional e converg&ecirc;ncia de vontades com o denunciado JOS&Eacute; GERALDO DA CRUZ, al&eacute;m de terem se omitido na evita&ccedil;&atilde;o de um grav&iacute;ssimo e humilhante crime praticado por este militar.</p> <p>N&atilde;o fosse a nominada omiss&atilde;o diante da vis&iacute;vel tortura, os policiais RICARDO KAORU e ANDERSON APARECIDO MORENO tamb&eacute;m intervieram na pr&aacute;tica criminosa, fazendo a conten&ccedil;&atilde;o dos demais abordados e, tamb&eacute;m, da v&iacute;tima, impedindo qualquer rea&ccedil;&atilde;o - ainda que de fuga - do mesmo.</p> <p>Os nominados militares, inclusive, se encontravam escalados para a Equipe T&aacute;tico M&oacute;vel da 30&ordf; Cia PM no hor&aacute;rio entre 18h de 02/06/2015 &agrave;s 04h de 03/06/2015.</p> <p>N&atilde;o h&aacute; m&iacute;nima d&uacute;vida de que os denunciados referidos no par&aacute;grafo acima compunham a mesma equipe e ocupavam a mesma viatura 20.878, modelo palio weekend.</p> <p>A v&iacute;tima, ap&oacute;s a tortura-castigo acima referida, foi &ldquo;liberada&rdquo;, tendo que se socorrer pelos pr&oacute;prios meios, dirigindo-se ao atendimento no HPS onde, por receio de nova repres&aacute;lia, afirmou ter sofrido queda da pr&oacute;pria altura ao ser atendida no hospital.</p> <p>De fato, o Exame de Corpo de Delito (Les&otilde;es Corporais) Indireto constante de f. 422 aponta que o ofendido sofreu trauma ao n&iacute;vel de Cotovelo Direito, acusando o RX fratura olecrano c/ desvio e submiss&atilde;o a osteoss&iacute;ntese, tendo sido a les&atilde;o produzida por instrumento ou meio contundente (Laudo 2027/2015 PML DE JUIZ DE FORA).</p> <p>Portanto, seja por a&ccedil;&atilde;o dolosa (JOS&Eacute; GERALDO DA CRUZ) ou por omiss&atilde;o igualmente dolosa (RICARDO KAORU e ANDERSON APARECIDO MORENO), devem estes denunciados ser condenados pela pr&aacute;tica de tortura-castigo (art. 1&ordm;, II c/c art. 1&ordm;, &sect; 2&ordm; da Lei n. 9.455/1997).</p> <p> </p> <p>[...]</p> <p> </p> <p>REQUERIMENTOS</p> <p>Devendo ser processados, oferece o Minist&eacute;rio P&uacute;blico a presente den&uacute;ncia, esperando que, recebida, sejam determinadas dilig&ecirc;ncias necess&aacute;rias &agrave; instru&ccedil;&atilde;o do feito, citados os acusados para assistir a todos os termos do processo at&eacute; decis&atilde;o final, sob pena de revelia (art. 399, &ldquo;c&rdquo; CPPM), observando-se o procedimento previsto nos artigos 384 a 450 do CPPM.</p> <p> </p> <p>[...]</p> <p> </p> <p>Os militares foram denunciados, ainda, pela pr&aacute;tica do crime de dano qualificado, mas foram absolvidos quanto ao delito, e n&atilde;o houve apelo do Minist&eacute;rio P&uacute;blico.</p> <p>Com a den&uacute;ncia, vieram os documentos relativos ao inqu&eacute;rito policial militar relacionado, conforme autos colacionados ao presente recurso.</p> <p>A den&uacute;ncia foi recebida no dia 7 de fevereiro de 2023 (Evento 1 &ndash; RECE_DENUN2).</p> <p>Os acusados e as testemunhas de acusa&ccedil;&atilde;o e de defesa foram ouvidos por meio de recurso audiovisual.</p> <p>O Minist&eacute;rio P&uacute;blico, em alega&ccedil;&otilde;es finais, requereu a condena&ccedil;&atilde;o dos r&eacute;us, nos termos da den&uacute;ncia. As defesas dos r&eacute;us pugnaram pela sua absolvi&ccedil;&atilde;o quanto aos crimes imputados.</p> <p>O douto Juiz de Direito Substituto da 1&ordf; AJME, conforme lan&ccedil;ado no in&iacute;cio deste relat&oacute;rio, condenou o r&eacute;u 3&ordm; Sgt PM Jos&eacute; Geraldo da Cruz pela pr&aacute;tica do crime previsto no art. 1&ordm;, inciso II, e &sect; 4&ordm;, inciso I, da Lei n. 9.455/97, qual seja tortura-castigo, com a agravante do art. 70, inciso II, al&iacute;nea &ldquo;g&rdquo;, do C&oacute;digo Penal Militar, impondo-lhe a pena de pena de 4 (quatro) anos e 8 (oito) meses de reclus&atilde;o, a ser cumprida em regime semiaberto. Condenou, ainda, os r&eacute;us Cb PM <span>Ricardo Kaoru de Souza</span> e Cb PM <span>Anderson Aparecido Moreno Felippe</span> pela pr&aacute;tica do crime previsto no art. 1&ordm;, &sect; 2&ordm;, da Lei n. 9.455/97, qual seja, tortura na modalidade omiss&atilde;o, com a agravante do art. 70, inciso II, al&iacute;nea &ldquo;g&rdquo;, do C&oacute;digo Penal Militar, impondo-lhes a pena de pena de 2 (dois) anos e 9 (nove) meses e 23 (vinte e tr&ecirc;s) dias de deten&ccedil;&atilde;o, a ser cumprida em regime aberto.</p> <p>A senten&ccedil;a se encontra colacionada no Evento 322.</p> <p>Inconformados, os r&eacute;us, por suas combativas defesas, apresentaram recursos de apela&ccedil;&atilde;o, conforme j&aacute; exposto neste relat&oacute;rio, pugnando pela absolvi&ccedil;&atilde;o dos militares. Segundo as defesas, o <em>Parquet </em>pugnou pela absolvi&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o h&aacute; provas da pr&aacute;tica do fato e a senten&ccedil;a se baseia em elementos de informa&ccedil;&atilde;o e em reconhecimento fotogr&aacute;fico eivado de nulidade.</p> <p>Em contrarraz&otilde;es, o Minist&eacute;rio P&uacute;blico reitera o pedido de absolvi&ccedil;&atilde;o, ou seja, adere ao pedido recursal.</p> <p>O eminente Procurador de Justi&ccedil;a, em manifesta&ccedil;&atilde;o no Evento 26, pugnou pelo conhecimento e desprovimento dos recursos interpostos pelos r&eacute;us.</p> <p>&Eacute; o relat&oacute;rio.</p> <p> </p> <p><strong>VOTOS</strong></p> <p><strong>DESEMBARGADOR OSMAR DUARTE MARCELINO, RELATOR</strong></p> <p>Eminentes Desembargadores, a a&ccedil;&atilde;o penal em estudo, apesar de parecer complexa, cede lugar &agrave; objetividade das provas produzidas, ou melhor, &agrave; aus&ecirc;ncia de provas e &agrave; exist&ecirc;ncia de meras suposi&ccedil;&otilde;es.</p> <p>Com todo o respeito, para condenar os r&eacute;us, apelantes, &eacute; necess&aacute;rio um esfor&ccedil;o herc&uacute;leo para dar a fr&aacute;geis ind&iacute;cios a aura de prova.</p> <p>Confesso a vossas excel&ecirc;ncias que eu n&atilde;o consegui enxergar a materialidade ou a autoria para o invocado delito de tortura.</p> <p>Pois bem. Feitas essas breves considera&ccedil;&otilde;es, passo ao voto quanto ao m&eacute;rito do recurso e da a&ccedil;&atilde;o, destacando que n&atilde;o existem preliminares para serem apreciadas.</p> <p>Rememoro, no voto, que o r&eacute;u 3&ordm; Sgt PM Jos&eacute; Geraldo da Cruz foi condenado pela pr&aacute;tica do crime previsto no art. 1&ordm;, inciso II, e &sect; 4&ordm;, inciso I, da Lei n. 9.455/97, qual seja, tortura-castigo, com a agravante do art. 70, inciso II, al&iacute;nea &ldquo;g&rdquo;, do C&oacute;digo Penal Militar, sendo-lhe imposta a pena de pena de 4 (quatro) anos e 8 (oito) meses de reclus&atilde;o, a ser cumprida em regime semiaberto.</p> <p>Os r&eacute;us Cb PM <span>Ricardo Kaoru de Souza</span> e Cb PM <span>Anderson Aparecido Moreno Felippe</span> foram condenados pela pr&aacute;tica do crime previsto no art. 1&ordm;, &sect; 2&ordm;, da Lei n. 9.455/97, qual seja, tortura na modalidade omiss&atilde;o, com a agravante do art. 70, inciso II, al&iacute;nea &ldquo;g&rdquo;, do C&oacute;digo Penal Militar, sendo-lhes imposta a pena de pena de 2 (dois) anos e 9 (nove) meses e 23 (vinte e tr&ecirc;s) dias de deten&ccedil;&atilde;o, a ser cumprida em regime aberto.</p> <p>Como dito alhures, ap&oacute;s detida an&aacute;lise de tudo o que consta dos autos, verifiquei que a condena&ccedil;&atilde;o dos r&eacute;us se baseia em apar&ecirc;ncia do fato, em probabilidade e em meras conjecturas.</p> <p>Vejam que a senten&ccedil;a, em tal sentido, aponta para a informa&ccedil;&atilde;o de que a imprensa ficou sabendo do fato, aponta para testemunhas que apenas ouviram dizer sobre os fatos, enumera doutrinas e jurisprud&ecirc;ncias e aponta para um laudo indireto que atesta apenas uma les&atilde;o existente na v&iacute;tima.</p> <p>E o pior: a senten&ccedil;a traz uma analogia das les&otilde;es que teriam sido provocadas por objeto similar a cassetete, com as les&otilde;es descritas em laudo produzido em feito diverso, com v&iacute;tima diversa, com autor diverso, tudo para mostrar que as les&otilde;es entre fatos distintos se assemelham e que se assemelha o intenso sofrimento da v&iacute;tima.</p> <p>Ora, o intenso sofrimento da v&iacute;tima, no caso em estudo, deve estar provado nestes autos em estudo, e jamais pode advir de interpreta&ccedil;&atilde;o de laudo em a&ccedil;&atilde;o absolutamente distinta, e, ainda, repito, tomando por base jurisprud&ecirc;ncia que envolve a&ccedil;&atilde;o distinta, referente a distintas pessoas.</p> <p>Entendo que &eacute; absolutamente indevido, at&eacute; mesmo absurdo, pegar trechos de um laudo relativo a pessoa diversa e em processo diverso para, &agrave; m&iacute;ngua de provas no feito a ser decidido, tomar as conclus&otilde;es daqueloutro caso para o caso em estudo, em compara&ccedil;&atilde;o injustificada e injustific&aacute;vel para reconhecer o sofrimento de uma v&iacute;tima.</p> <p>Ali&aacute;s, em sentido diverso, vejam vossas excel&ecirc;ncias que a pr&oacute;pria senten&ccedil;a condenat&oacute;ria traz trechos em que a d&uacute;vida &eacute; patente, demonstrando a aus&ecirc;ncia da certeza para condenar. Confiram-se trechos nesse sentido:</p> <p> </p> <p>[...]</p> <p> </p> <p>Outro aspecto relevante a ser enfatizado &eacute; o meio utilizado para ofender a integridade f&iacute;sica da v&iacute;tima, pois, no caso concreto, o ofendido afirmou ter sofrido "golpes de bast&atilde;o". Esse tipo de arma branca &eacute; respons&aacute;vel por produzir les&otilde;es contundentes no corpo de seu alvo. Nesse ponto, tamb&eacute;m merece <strong>destaque a doutrina de Genival Veloso de Fran&ccedil;a ao descrever a natureza destas les&otilde;es</strong>:</p> <p> </p> <p>(...)</p> <p> </p> <p>Outro dado constante do laudo de exame de corpo de delito indireto (IPM - Evento 2 - PE&Ccedil;AS DIGITALIZADAS20) &eacute; que a les&atilde;o provocada em Jorge Lu&iacute;s Louren&ccedil;o, al&eacute;m de ter resultado em fratura no olecrano, gerou um edema na regi&atilde;o lesionada. <strong>Os edemas s&atilde;o indicativos do uso de um instrumento contundente para provocar a les&atilde;o, como explica Genival Veloso de Fran&ccedil;a</strong>:</p> <p> </p> <p>(<strong>Destaques do relator)</strong></p> <p> </p> <p>(...)</p> <p> </p> <p>Tamb&eacute;m n&atilde;o h&aacute; que se falar em d&uacute;vida quanto ao nexo de causalidade entre a&ccedil;&atilde;o e resultado, pelo simples fato de o ofendido ter alegado, ao ser atendido no HPS, que teria sofrido "queda da pr&oacute;pria altura". Isso porque, em depoimento irrepet&iacute;vel, a pr&oacute;pria v&iacute;tima esclareceu que apenas apresentou esta primeira vers&atilde;o no hospital por temer outras repres&aacute;lias dos militares, o que &eacute; veross&iacute;mil no contexto de um crime de tortura, durante a noite, contra uma pessoa hipervulner&aacute;vel.</p> <p> </p> <p>N&atilde;o se desconhece a inexist&ecirc;ncia de testemunhas ouvidas em ju&iacute;zo que tenham presenciado a viol&ecirc;ncia praticada pelos denunciados contra o ofendido Jorge Luis Louren&ccedil;o. Todavia, h&aacute; de se ressaltar que os crimes praticados contra pessoas em situa&ccedil;&atilde;o de hipervulnerabilidade social s&atilde;o dotados de caracter&iacute;sticas particulares, ainda mais quando cometidos por agentes de seguran&ccedil;a p&uacute;blica, no per&iacute;odo noturno, quando n&atilde;o h&aacute; significativo fluxo de pessoas.</p> <p> </p> <p>(...)</p> <p> </p> <p>Ademais, as testemunhas Claiton Damasceno, Vanessa Maria Farnezi Santos e Tatiana Oliveira Pereira Tavares, ao serem inquiridas no desenvolvimento da marcha processual, foram claras ao dizer que tomaram conhecimento de que o ofendido Jorge Luis Louren&ccedil;o estava com o bra&ccedil;o enfaixado, em fun&ccedil;&atilde;o das agress&otilde;es praticadas pelos denunciados. Isto &eacute;, as referidas testemunhas n&atilde;o presenciaram o fato, mas dele tomaram conhecimento diretamente por meio do pr&oacute;prio ofendido. (...)</p> <p> </p> <p>(...)</p> <p> </p> <p>Do mesmo modo, at&eacute; os ve&iacute;culos midi&aacute;ticos de Juiz de Fora souberam do ocorrido, o que resultou na publica&ccedil;&atilde;o de uma mat&eacute;ria no jornal "Tribuna de Minas", em que &eacute; estampada uma foto do ofendido com seu bra&ccedil;o enfaixado.</p> <p> </p> <p>Esclare&ccedil;a-se que n&atilde;o est&aacute; se afirmando que basta, t&atilde;o somente, a palavra da v&iacute;tima para embasar uma condena&ccedil;&atilde;o, sob pena de a senten&ccedil;a restar lastreada em poss&iacute;veis vieses cognitivos. Todavia, a aus&ecirc;ncia de testemunhas presenciais, em crimes cometidos na clandestinidade, n&atilde;o &eacute; capaz de desestabilizar a congru&ecirc;ncia entre os demais elementos de prova, porque, se elas nada viram, nada podem afirmar sobre o que aconteceu ou n&atilde;o aconteceu. (...)</p> <p> </p> <p>[...]</p> <p> </p> <p>A senten&ccedil;a n&atilde;o traz, em seus fundamentos, a certeza que o juiz sentenciante quer atribuir &agrave; materialidade e &agrave; autoria, e chega a invocar li&ccedil;&otilde;es de um doutrinador para apontar que as les&otilde;es decorreram de golpes de cassetete desferidos pelo r&eacute;u 3&ordm; Sgt PM Jos&eacute; Geraldo da Cruz, e que golpes de tal bast&atilde;o podem produzir tais les&otilde;es.</p> <p>Sim. Um cassetete pode produzir tais les&otilde;es, como tamb&eacute;m o pode um peda&ccedil;o de madeira, de ferro, ou qualquer outro objeto semelhante.</p> <p>Aqui, ressalto que a senten&ccedil;a desconhece completamente a vers&atilde;o inicial da v&iacute;tima, quando relatou, no hospital, que teria sofrido uma queda. O afastamento dessa vers&atilde;o pelo juiz baseia-se, t&atilde;o somente, na mera premissa, sem conclus&atilde;o aceit&aacute;vel, de que a v&iacute;tima temeria <em>&ldquo;outras repres&aacute;lias dos militares, o que &eacute; veross&iacute;mil no contexto de um crime de tortura, durante a noite, contra uma pessoa hipervulner&aacute;vel&rdquo;</em>.</p> <p>Nunca houve qualquer prova de amea&ccedil;as, de atos anteriores de viol&ecirc;ncia, de anteriores ou posteriores repres&aacute;lias. Ent&atilde;o, como pode ser veross&iacute;mil esse temor apontado na decis&atilde;o condenat&oacute;ria?</p> <p>Eu, <em>data m&aacute;xima venia</em>, n&atilde;o vislumbro o &ldquo;robusto acervo probat&oacute;rio da materialidade e autoria da pr&aacute;tica do crime de tortura-castigo pelos denunciados&rdquo;.</p> <p>A prova dos autos, verdadeiramente estabelecida, nos mostra que ningu&eacute;m viu qualquer ato de viol&ecirc;ncia, e o simples fato de os militares estarem em patrulha naquela &aacute;rea, como ocorria de forma costumeira, n&atilde;o &eacute; prova do crime. A guarni&ccedil;&atilde;o dos acusados certamente &eacute; conhecida pela v&iacute;tima e demais pessoas que ficam naquelas imedia&ccedil;&otilde;es para o comprovado uso de drogas e pr&aacute;tica de delitos, e a verdade, como dito pelo <em>Parquet </em>na a&ccedil;&atilde;o de origem, &eacute; que tais pessoas, inobstante a vulnerabilidade social, n&atilde;o querem a presen&ccedil;a de militares nos locais, notadamente quando s&atilde;o militares operosos e cumpridores de suas miss&otilde;es.</p> <p>Continuo. A falta de provas &eacute; t&atilde;o patente, que o Minist&eacute;rio P&uacute;blico, em alega&ccedil;&otilde;es finais, pediu a absolvi&ccedil;&atilde;o dos r&eacute;us, e pediu, ainda, em contrarraz&otilde;es aos apelos dos militares, o provimento dos recursos, para reformar a senten&ccedil;a e absolv&ecirc;-los.</p> <p>Trago &agrave; baila a manifesta&ccedil;&atilde;o do <em>Parquet </em>no Evento 282 dos autos da a&ccedil;&atilde;o de origem:</p> <p> </p> <p>[...]</p> <p> </p> <p>Assim, pelo que se observa dos levantamentos ocorridos em Ju&iacute;zo, n&atilde;o foram fornecidos elementos robustos para a condena&ccedil;&atilde;o criminal, e esta &eacute; vedada quando exclusivamente calcada em provas produzidas em fase pr&eacute;-processual.</p> <p> </p> <p>Como cedi&ccedil;o, no processo criminal vigora o princ&iacute;pio segundo o qual, para alicer&ccedil;ar um decreto condenat&oacute;rio, a prova deve ser coerente, positiva e indiscut&iacute;vel, n&atilde;o bastando a mera probabilidade acerca do delito e da autoria. Persistindo a d&uacute;vida, m&iacute;nima que seja, imp&otilde;e-se a absolvi&ccedil;&atilde;o.</p> <p> </p> <p>(...)</p> <p> </p> <p>N&atilde;o passa despercebido que h&aacute; nos autos not&iacute;cias de agressividade/desrespeito a direitos, todavia s&atilde;o coment&aacute;rios gen&eacute;ricos, sem a certeza necess&aacute;ria para subsidiar uma condena&ccedil;&atilde;o pelo grave crime de tortura. Ademais, o ambiente onde os fatos se passaram, por si s&oacute;, j&aacute; traz carga elevada de viol&ecirc;ncia, sendo certo que &eacute; local permeado pelo consumo de drogas de toda esp&eacute;cie, consumo excessivo de &aacute;lcool, furtos, recepta&ccedil;&atilde;o e tudo aquilo que adv&eacute;m da mis&eacute;ria humana.</p> <p> </p> <p>[...]</p> <p> </p> <p>Com efeito, o <em>Parquet </em>est&aacute; corret&iacute;ssimo, pois os fatos e as circunst&acirc;ncias trazidas aos autos revelam a inequ&iacute;voca inexist&ecirc;ncia de provas quanto ao delito imputado aos militares apelantes, muito menos na modalidade tortura-castigo, que exige um fim especial de agir.</p> <p>&Eacute; certo que algo possa ter acontecido. Mas esse &ldquo;algo acontecido&rdquo; est&aacute; no campo da possibilidade abstrata, da probabilidade, da suposi&ccedil;&atilde;o, sem a m&iacute;nima certeza da autoria ou da materialidade pela prova dos autos.</p> <p>Para mim, como dito alhures, a fr&aacute;gil prova demonstra que a narrativa da den&uacute;ncia destoa da verdade que se exige sobre fatos e circunst&acirc;ncias para afirmar a materialidade e a autoria de um delito.</p> <p>Aqui, trago &agrave; mem&oacute;ria a li&ccedil;&atilde;o do eminente Desembargador R&uacute;bio Paulino Coelho no julgamento da apela&ccedil;&atilde;o criminal Eproc n. 2000763-76.2019.9.13.0002:</p> <p> </p> <p>&ldquo;A tortura tem duas faces muito bem definidas, ao corpo e ao esp&iacute;rito, ou seja, &eacute; capaz de causar grave sofrimento f&iacute;sico e/ou mental. Nenhuma das duas faces est&aacute; presente no processo-crime que ora analisamos, fugindo &agrave; razoabilidade e &agrave; pr&oacute;pria din&acirc;mica dos eventos. N&atilde;o &eacute; conceb&iacute;vel atribuir t&atilde;o gravosa imputa&ccedil;&atilde;o a um profissional de seguran&ccedil;a p&uacute;blica, quando t&atilde;o fr&aacute;gil, fugaz e fugidia demonstra-se a prova dos autos&rdquo;.</p> <p> </p> <p>O crime &eacute; fato t&iacute;pico, antijur&iacute;dico ou il&iacute;cito, e culp&aacute;vel, mas precisa, antes de tudo, de um fato objetivamente estabelecido e demonstrado, cuja exist&ecirc;ncia seja pass&iacute;vel de visualiza&ccedil;&atilde;o no mundo real, e, na hip&oacute;tese dos autos, repito que n&atilde;o consegui vislumbrar o fato criminoso.</p> <p>Sabemos que o objetivo da produ&ccedil;&atilde;o probat&oacute;ria ser&aacute; sempre o de demonstrar o que realmente ocorreu no mundo f&aacute;tico. A prova vincula-se &agrave; verdade e &agrave; certeza, e estas se ligam &agrave; realidade.</p> <p>No sistema jur&iacute;dico brasileiro, n&atilde;o se admite que algu&eacute;m seja condenado sem prova robusta da autoria e da materialidade de alguma atividade criminosa. Ningu&eacute;m pode ser condenado criminalmente com base em suposi&ccedil;&otilde;es ou presun&ccedil;&otilde;es, ou por uma apar&ecirc;ncia do que possa ser real.</p> <p>Para a condena&ccedil;&atilde;o, exige-se do magistrado o estado de certeza, e n&atilde;o a mera probabilidade da verossimilhan&ccedil;a das alega&ccedil;&otilde;es da v&iacute;tima. O juiz deve valer-se de provas id&ocirc;neas, seguras e concretas para uma condena&ccedil;&atilde;o.</p> <p>Por isso, a restri&ccedil;&atilde;o do valor probat&oacute;rio que se faz &agrave;s declara&ccedil;&otilde;es da v&iacute;tima, em regra, &eacute; observada quando tais declara&ccedil;&otilde;es s&atilde;o o &uacute;nico elemento de convic&ccedil;&atilde;o do magistrado e quando tais declara&ccedil;&otilde;es n&atilde;o encontram apoio nas demais provas colhidas.</p> <p>Trago, por fim, preciosa li&ccedil;&atilde;o do eminente Desembargador Fernando Galv&atilde;o da Rocha no julgamento da Apela&ccedil;&atilde;o n. 0001432-21.2009.9.13.0001, que tratava do crime de tortura-castigo, com resultado morte. Na oportunidade, Sua Excel&ecirc;ncia consignou em seu voto que:</p> <p> </p> <p>[...]</p> <p> </p> <p>O contexto em que os fatos se deram prejudica a produ&ccedil;&atilde;o de prova segura sobre a autoria das les&otilde;es praticadas contra a v&iacute;tima. A &uacute;nica informa&ccedil;&atilde;o existente no processo sobre a autoria das agress&otilde;es foi prestada por Jorge Adauto na fase policial e indica que apenas dois dos quatro recorrentes praticaram agress&otilde;es contra a v&iacute;tima. A d&uacute;vida razo&aacute;vel sobre quem seriam os dois militares que praticaram as agress&otilde;es n&atilde;o foi superada. Diante da insufici&ecirc;ncia do conjunto probat&oacute;rio, a absolvi&ccedil;&atilde;o de todos se imp&otilde;e.</p> <p> </p> <p>Considerando que o m&eacute;rito da pretens&atilde;o punitiva foi enfrentado e a absolvi&ccedil;&atilde;o por insufici&ecirc;ncia de provas constitui situa&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica mais favor&aacute;vel aos recorrentes, que foram condenados em situa&ccedil;&atilde;o de incongru&ecirc;ncia entre a acusa&ccedil;&atilde;o e a senten&ccedil;a, a conclus&atilde;o do exame de m&eacute;rito deve se estender a todos os recorrentes.</p> <p> </p> <p>[...]</p> <p> </p> <p>Por fim, se n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel condenar pelo crime de tortura, na modalidade comissiva, tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel haver omiss&atilde;o dos militares aos quais se imputa a pr&aacute;tica do crime de tortura na modalidade omissiva.</p> <p>Temos consignado em v&aacute;rias oportunidades, e cabe sempre repetir, a preocupa&ccedil;&atilde;o com a resist&ecirc;ncia injustificada de civis em abordagens policiais, em grande parte com xingamentos e com atos de ignor&acirc;ncia dirigidos aos militares, demonstrando que estamos vivendo tempos de pouca afei&ccedil;&atilde;o &agrave; autoridade policial em suas atividades, mesmo quando se trata de abordagens preventivas. Essa resist&ecirc;ncia e esse desrespeito, tamb&eacute;m verificados contra membros do Judici&aacute;rio, t&ecirc;m-se tornado corriqueiros na atividade das pol&iacute;cias no Brasil.</p> <p><strong>Ante o exposto,</strong> dou provimento aos recursos de apela&ccedil;&atilde;o dos militares, para reformar integralmente a senten&ccedil;a de primeiro grau de jurisdi&ccedil;&atilde;o e, por conseguinte, absolver os r&eacute;us, apelantes, dos crimes que lhes s&atilde;o imputados nesta a&ccedil;&atilde;o, e o fa&ccedil;o com suped&acirc;neo no art. 439, &ldquo;e&rdquo;, do C&oacute;digo de processo Penal Militar.</p> <p>&Eacute; como voto.</p> <p><strong> </strong></p> <p><strong>DESEMBARGADOR FERNANDO GALV&Atilde;O DA ROCHA, REVISOR</strong></p> <p>Srs. Desembargadores. Na oportunidade, acompanho as raz&otilde;es e o voto proferido pelo eminente relator para, igualmente, dar provimento aos recursos e absolver os apelantes.</p> <p><strong> </strong></p> <p><strong>DESEMBARGADOR R&Uacute;BIO PAULINO COELHO</strong></p> <p>Acompanho integralmente o lapidar voto do e. desembargador relator para absolver os militares com fulcro no art. 439, al&iacute;nea "e", do CPPM.</p> <p><strong> </strong></p> <p><strong>Belo Horizonte, sess&atilde;o ordin&aacute;ria presencial de julgamento do Tribunal de Justi&ccedil;a Militar do Estado de Minas Gerais, aos 2 de junho de 2025.</strong></p> <p><strong> </strong></p> <p><strong>Desembargador Osmar Duarte Marcelino</strong></p> <p><strong>Presidente da Primeira C&acirc;mara e Relator</strong></p></section> <section> <p>Belo Horizonte, 02 de junho de 2025.</p></section> <section> </section> <section> <p> </p> <hr> <p> </p></section> <footer> </footer></article></body></html>

12/06/2025, 00:00
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